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# 141 Podcast
Valéria Cristini
Conviver - Oportunidade de Crescimento
A convivência humana é o laboratório real do espírito.
Nesta palestra proferida no Centro Espírita Friburguense, a palestrante Valéria Cristini convida-nos a refletir sobre o convívio social e familiar não como um fardo ou um teste de paciência, mas como a ferramenta mais sofisticada que as Leis Divinas possuem para promover a nossa reforma íntima e evolução moral.
É no choque das ideias, na tolerância mútua e no exercício diário do perdão que desarmamos as nossas sombras, abandonamos o orgulho e o egoísmo, e transformamos o ato de conviver numa ponte para o crescimento espiritual.
02:27 - Seção 01: A Necessidade de Vida Social - LE - 766
03:40 - Seção 02: Funções da Vida Social - LE - 768
16:15 - Seção 03: Pecados por Pensamento
28:09 - Seção 04: Vossa mão é motivo de Escândalo
33:59 - Seção 05: Bem-aventurados os Brandos e os Pacíficos
39:33 - Seção 06: A Dor e a Paciência
46:46 - Seção 07: Obediência e Resignação
54:48 - Seção 08: O argueiro e a trave no olho
Valéria Cristini
Seção 01: Por que o isolamento digital e as bolhas virtuais estão a adoecer a nossa capacidade de conviver e amar?
A Necessidade de Vida Social
O Livro dos Espíritos - Parte terceira — Das leis morais - Capítulo VII — 6. Lei de sociedade - Necessidade da vida social - 766
Lei de sociedade
Necessidade da vida social
766. A vida social está na natureza?
“Certamente. Deus fez o homem para viver em sociedade. Não lhe deu inutilmente a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação.”
(Veja mais na Kardecpedia)
A resposta dos Espíritos nesta questão funciona como um verdadeiro diagnóstico para a nossa época. Kardec interroga sobre as bases da vida social e os Benfeitores respondem que fomos programados para a relação — a palavra e as faculdades de comunicação não nos foram dadas por mero acaso.
No entanto, vivemos o grande paradoxo do século XXI:
nunca estivemos tão hiperconectados pelas redes e, simultaneamente, tão profundamente isolados na nossa intimidade.
O "Social Superficial" gera a ilusão de convívio, mas afasta-nos da oficina real.
Como a Valéria destacou na palestra, conviver de verdade exige tolerar a aresta do outro, o que dá muito trabalho e fere o nosso orgulho.
É muito mais fácil fecharmo-nos em bolhas digitais onde só ouvimos quem concorda conosco.
Mas esse insulamento virtual embrutece o espírito.
A Lei de Sociedade lembra-nos que o outro é o espelho necessário para a nossa reforma íntima; sem o contacto real, a nossa capacidade de amar atrofia.
Seção 02: Ninguém é perfeito sozinho: por que precisamos uns dos outros para não estagnar na vida?
Funções da Vida Social
O Livro dos Espíritos - Parte terceira — Das leis morais - Capítulo VII — 6. Lei de sociedade - Necessidade da vida social - 768
768. Procurando a sociedade, não faz o homem mais do que obedecer a um sentimento pessoal, ou haverá nesse sentimento algum providencial objetivo de ordem mais geral?
“O homem tem que progredir. Insulado, não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades; é-lhe necessário o contato com os outros homens. No insulamento, ele se embrutece e estiola.”
Homem nenhum possui faculdades completas. Mediante a união social é que elas umas às outras se completam, para lhe assegurarem o bem-estar e o progresso. Por isso é que, precisando uns dos outros, os homens foram feitos para viver em sociedade e não insulados.
(veja mais na Kardecpedia)
A questão 768 de O Livro dos Espíritos aborda o objetivo da vida em sociedade e a necessidade do progresso conjunto. Em suma, aponta-se que o ser humano precisa do contato com o outro para progredir, pois isolado acaba por se embrutecer e estiolgar-se, visto que ninguém possui faculdades completas e a união social assegura o bem-estar comum.
Esta reflexão desconstrói a ilusão moderna do indivíduo autossuficiente e reforça que a evolução espiritual depende da convivência. "O outro" funciona como o motor necessário para lapidar o nosso egoísmo e complementar nossas capacidades rumo ao progresso.
Seção 03: O tribunal da mente: como os nossos pensamentos ocultos moldam a nossa realidade e os nossos relacionamentos?
Pecados por Pensamento
O Evangelho segundo o Espiritismo - Capítulo VIII — Bem-aventurados os que têm coração puro - Pecado por pensamentos. Adultério - 7
7. Esse princípio suscita naturalmente a seguinte questão: Sofrem-se as consequências de um pensamento mau, embora nenhum efeito produza?
Cumpre se faça aqui uma importante distinção. À medida que avança na vida espiritual, a alma que enveredou pelo mau caminho se esclarece e despoja pouco a pouco de suas imperfeições, conforme a maior ou menor boa vontade que demonstre, em virtude do seu livre-arbítrio.
Todo pensamento mau resulta, pois, da imperfeição da alma; mas, de acordo com o desejo que alimenta de depurar-se, mesmo esse mau pensamento se lhe torna uma ocasião de adiantar-se, porque ela o repele com energia. É indício de esforço por apagar uma mancha. Não cederá, se se apresentar oportunidade de satisfazer a um mau desejo. Depois que haja resistido, sentir-se-á mais forte e contente com a sua vitória.
Aquela que, ao contrário, não tomou boas resoluções, procura ocasião de praticar o mau ato e, se não o leva a efeito, não é por virtude da sua vontade, mas por falta de ensejo. É, pois, tão culpada quanto o seria se o cometesse.
Em resumo, naquele que nem sequer concebe a ideia do mal, já há progresso realizado; naquele a quem essa ideia acode, mas que a repele, há progresso em vias de realizar-se; naquele, finalmente, que pensa no mal e nesse pensamento se compraz, o mal ainda existe na plenitude da sua força. Num, o trabalho está feito; no outro, está por fazer-se. Deus, que é justo, leva em conta todas essas gradações na responsabilidade dos atos e dos pensamentos do homem.
(veja mais na Kardecpedia)
Numa era de superexposição digital, onde nos preocupamos tanto com a imagem que projetamos nas redes sociais, este trecho convida-nos a olhar para onde ninguém vê: o nosso mundo íntimo.
A convivência verdadeira não se resume às aparências, mas à energia daquilo que nutrimos em silêncio.
Muitas vezes, sustentamos um sorriso de fachada enquanto alimentamos o julgamento, a inveja ou o ressentimento contra aqueles com quem convivemos.
Como a Valéria bem salientou na palestra, a nossa mente é o laboratório da nossa reforma íntima. Sentir um impulso negativo é um reflexo das nossas imperfeições antigas, mas o verdadeiro mérito está em travar esse pensamento, repelindo-o com a força da nossa vontade.
Vencer a si mesmo no campo mental é o primeiro e mais importante passo para transformar a convivência diária numa ponte de harmonia e evolução espiritual.
Seção 04: Corte o mal pela raiz: como abandonar velhos hábitos e tendências que destroem as nossas relações?
Vossa mão é motivo de Escândalo
O Evangelho segundo o Espiritismo - Capítulo VIII — Bem-aventurados os que têm coração puro - Escândalos - Se a vossa mão é motivo de escândalo, cortai-a - 17
17. Se vossa mão é causa de escândalo, cortai-a.
Figura enérgica esta, que seria absurda se tomada ao pé da letra, e que apenas significa que cada um deve destruir em si toda causa de escândalo, isto é, de mal; arrancar do coração todo sentimento impuro e toda tendência viciosa. Quer dizer também que, para o homem, mais vale ter cortada uma das mãos, antes que servir essa mão de instrumento para uma ação má; ficar privado da vista, antes que lhe servirem os olhos para conceber maus pensamentos. Jesus nada disse de absurdo, para quem quer que apreenda o sentido alegórico e profundo de suas palavras. Muitas coisas, entretanto, não podem ser compreendidas sem a chave que para as decifrar o Espiritismo faculta.
(Veja na Kardecpedia)
O Item 17 do Capítulo VIII de O Evangelho segundo o Espiritismo traz uma das metáforas mais impactantes do Novo Testamento. Abordar isto no contexto do "Conviver" é um convite direto a assumirmos a responsabilidade pelas nossas ações, extirpando as nossas más inclinações antes que elas firam os outros.
Muitas vezes, na convivência diária, nós temos plena consciência daqueles comportamentos automáticos que ferem quem nos rodeia — seja uma palavra ríspida, uma reação agressiva, o hábito de fofocar ou a mania de querer ter sempre razão. No entanto, preferimos culpar o temperamento ou o comportamento alheio em vez de fazermos o sacrifício de mudar.
Como a Valéria ilustrou de forma brilhante na palestra, conviver é um exercício contínuo de autodomínio. A linguagem figurada de Jesus serve perfeitamente para nos lembrar que o processo de reforma íntima exige determinação radical. "Cortar a mão" ou "arrancar o olho" significa identificar aquela nossa maior fraqueza no convívio social e decidir, com coragem, estancar essa atitude antes que ela contamine o ambiente e sabote os nossos relacionamentos. O Espiritismo dá-nos a chave para entender que o verdadeiro sacrifício não é físico, mas moral.
Seção 05: O peso de uma palavra: como a "agressividade oculta" sabota a nossa paz e destrói os nossos relacionamentos?
Bem-aventurados os Brandos e os Pacíficos
O Evangelho segundo o Espiritismo - Capítulo IX — Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos - Injúrias e violências - 4
4. Por estas máximas, Jesus faz da brandura, da moderação, da mansuetude, da afabilidade e da paciência, uma lei. Condena, por conseguinte, a violência, a cólera e até toda expressão descortês de que alguém possa usar para com seus semelhantes. Raca, entre os hebreus, era um termo desdenhoso que significava — homem que não vale nada, e se pronunciava cuspindo e virando para o lado a cabeça. Vai mesmo mais longe, pois que ameaça com o fogo do inferno aquele que disser a seu irmão: És louco.
Evidente se torna que aqui, como em todas as circunstâncias, a intenção agrava ou atenua a falta; mas, em que pode uma simples palavra revestir-se de tanta gravidade que mereça tão severa reprovação? É que toda palavra ofensiva exprime um sentimento contrário à lei do amor e da caridade que deve presidir às relações entre os homens e manter entre eles a concórdia e a união; é que constitui um golpe desferido na benevolência recíproca e na fraternidade; é que entretém o ódio e a animosidade; é, enfim, que, depois da humildade para com Deus, a caridade para com o próximo é a lei primeira de todo cristão.
(Veja na Kardecpedia)
O item 4 do capítulo IX de O Evangelho segundo o Espiritismo explica que Jesus elevou a brandura, a moderação e a paciência à categoria de leis morais, condenando não apenas a violência física, mas qualquer expressão descortês ou insultuosa para com o semelhante. Kardec esclarece que a intenção agrava ou atenua a falta, mas ressalta que uma palavra ofensiva é grave porque representa um golpe desferido contra a lei de amor, a fraternidade e a união que devem reger as relações humanas.
Este trecho funciona como um espelho urgente para a nossa atualidade. Na era da comunicação digital instantânea, as pessoas sentem-se no direito de disparar palavras ríspidas, ironias e julgamentos cruéis sob o disfarce de "sinceridade" ou "opinião" nas redes sociais e dentro de casa. Esquecemo-nos de que o insulto e a agressividade verbal são formas silenciosas de violência. O termo Raca, citado por Kardec, representava o ato de cuspir ao chão para diminuir o outro; hoje, fazemos o mesmo quando ignoramos, desvalidadamos ou diminuímos aqueles com quem convivemos.
Como a Valéria destacou na palestra, conviver é o laboratório onde testamos a nossa capacidade de autocontrolar os impulsos de cólera. Uma resposta ríspida alimenta o ódio e quebra os laços de fraternidade instantaneamente. Vigiar as palavras e escolher a brandura, mesmo diante da provocação, não é um sinal de fraqueza, mas sim a prova máxima de maturidade espiritual e respeito pela lei de amor ao próximo.
Seção 06: Mude o ponto de vista: como parar de focar nas rasteiras do mundo e encontrar forças para seguir em frente?
A Dor e a Paciência
O Evangelho segundo o Espiritismo - Capítulo IX — Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos - Instruções dos Espíritos - A paciência - 7
7. A dor é uma bênção que Deus envia a seus eleitos; não vos aflijais, pois, quando sofrerdes; antes, bendizei de Deus onipotente que, pela dor, neste mundo, vos marcou para a glória no céu.
Sede pacientes. A paciência também é uma caridade e deveis praticar a lei de caridade ensinada pelo Cristo, enviado de Deus. A caridade que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil de todas. Outra há, porém, muito mais penosa e, conseguintemente, muito mais meritória: a de perdoarmos aos que Deus colocou em nosso caminho para serem instrumentos do nosso sofrer e para nos porem à prova a paciência.
A vida é difícil, bem o sei. Compõe-se de mil nadas, que são outras tantas picadas de alfinetes, mas que acabam por ferir. Se, porém, atentarmos nos deveres que nos são impostos, nas consolações e compensações que, por outro lado, recebemos, havemos de reconhecer que são as bênçãos muito mais numerosas do que as dores. O fardo parece menos pesado, quando se olha para o alto, do que quando se curva para a terra a fronte.
Coragem, amigos! Tendes no Cristo o vosso modelo. Mais sofreu ele do que qualquer de vós e nada tinha de que se penitenciar, ao passo que vós tendes de expiar o vosso passado e de vos fortalecer para o futuro. Sede, pois, pacientes, sede cristãos. Essa palavra resume tudo.
Um Espírito amigo.
Havre, 1862
(Veja mais na Kardecpedia)
O item 7 do capítulo IX de O Evangelho segundo o Espiritismo, assinado por um Espírito amigo, ensina que a dor é uma oportunidade de fortalecimento espiritual e que a verdadeira paciência é uma extensão da caridade. O texto ressalta que o fardo da vida parece muito menos pesado quando o ser humano aprende a olhar para o alto, focando nos deveres morais e nas compensações divinas, em vez de curvar a fronte para a terra e prender-se unicamente às contrariedades materiais.
Esta lição traz um remédio precioso contra a pressa e a reatividade que dominam a nossa sociedade atual. Hoje em dia, qualquer pequena divergência nas redes digitais ou no convívio familiar vira motivo para discussões ácidas e rompimentos rápidos. Esquecemo-nos de que as relações humanas são feitas de "mil nadas" — aquelas pequenas atitudes do outro que nos incomodam e que funcionam como autênticas picadas de alfinete no nosso orgulho.
Como a Valéria abordou de forma tão sensível na palestra, "olhar para o alto" não significa fugir da realidade ou ignorar os conflitos cotidianos. Significa mudar a nossa postura mental perante as pessoas difíceis da nossa caminhada. Em vez de as enxergarmos como inimigas da nossa paz, passamos a entendê-las como os "instrumentos de prova" que Deus colocou no nosso caminho para exercitarmos a tolerância moral. Quando erguemos o olhar e começamos a contabilizar as bênçãos ocultas do dia a dia, o coração ganha a resiliência e a coragem necessárias para seguir em frente sem se deixar ferir.
Seção 07: Forças ativas da alma: como a inteligência e o sentimento nos ajudam a vencer a revolta e a evoluir?
Obediência e resignação
O Evangelho segundo o Espiritismo - Capítulo IX — Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos - Instruções dos Espíritos - Obediência e resignação
Obediência e resignação
8. A doutrina de Jesus ensina, em todos os seus pontos, a obediência e a resignação, duas virtudes companheiras da doçura e muito ativas, se bem os homens erradamente as confundam com a negação do sentimento e da vontade.
A obediência é o consentimento da razão;
a resignação é o consentimento do coração,
forças ativas ambas, porquanto carregam o fardo das provações
que a revolta insensata deixa cair.
O pusilânime não pode ser resignado,
do mesmo modo que o orgulhoso e o egoísta não podem ser obedientes.
Jesus foi a encarnação dessas virtudes que a antiguidade material desprezava. Ele veio no momento em que a sociedade romana perecia nos desfalecimentos da corrupção. Veio fazer que, no seio da Humanidade deprimida, brilhassem os triunfos do sacrifício e da renúncia carnal.
Cada época é marcada, assim, com o cunho da virtude ou do vício que a tem de salvar ou perder.
A virtude da vossa geração é a atividade intelectual; seu vício é a indiferença moral.
Digo, apenas, atividade, porque o gênio se eleva de repente e descobre, por si só, horizontes que a multidão somente mais tarde verá, enquanto que a atividade é a reunião dos esforços de todos para atingir um fim menos brilhante, mas que prova a elevação intelectual de uma época.
Submetei-vos à impulsão que vimos dar aos vossos espíritos; obedecei à grande lei do progresso, que é a palavra da vossa geração. Ai do espírito preguiçoso, ai daquele que cerra o seu entendimento!
Ai dele! porquanto nós, que somos os guias da Humanidade em marcha, lhe aplicaremos o látego e lhe submeteremos a vontade rebelde, por meio da dupla ação do freio e da espora. Toda resistência orgulhosa terá de, cedo ou tarde, ser vencida. Bem-aventurados, no entanto, os que são brandos, pois prestarão dócil ouvido aos ensinos.
Lázaro.
Paris, 1863
(Veja mais na Kardecpedia)
O item 8 do capítulo IX de O Evangelho segundo o Espiritismo, assinado por Lázaro, define a obediência como o consentimento da razão e a resignação como o consentimento do coração. O benfeitor combate a ideia de que estas virtudes representam a negação da vontade, mostrando que são forças altamente ativas capazes de carregar o fardo das provações. Lázaro alerta ainda que o grande vício da nossa era é a indiferença moral, apesar do elevado desenvolvimento intelectual.
Este texto é um choque de lucidez para o homem moderno. Vivemos numa época de imensa atividade intelectual, onde a tecnologia e a informação correm a velocidades espantosas, mas que padece, paradoxalmente, de uma profunda indiferença moral. Confundimos obediência com fraqueza e resignação com passividade ou submissão cega. A cultura da massificação estimula a revolta constante e o egoísmo, fazendo-nos acreditar que aceitar as contrariedades da vida é um sinal de derrota.
Como a palestra da Valéria nos convida a perceber, conviver exige acionar estas duas forças vivas. A obediência da razão surge quando compreendemos e aceitamos as Leis Divinas, entendendo que o familiar difícil ou a situação complexa têm uma razão de ser no nosso progresso. A resignação do coração é o passo seguinte: é silenciar a queixa e acolher o teste com amor, sem revolta, transformando o fardo num degrau de ascensão. Quem se revolta deixa cair a carga e estagna; quem se resigna com inteligência caminha firme em direção à luz.
Seção 08: O espelho das relações: por que os defeitos que mais nos incomodam nos outros revelam as nossas próprias sombras?
O argueiro e a trave no olho
O Evangelho segundo o Espiritismo - Capítulo X — Bem-aventurados os que são misericordiosos - O argueiro e a trave no olho
O argueiro e a trave no olho
9. Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? – Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: Deixa-me tirar um argueiro do teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? – Hipócritas, tirai primeiro a trave do vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão. (S. MATEUS, 7:3 a 5.)
10. Uma das insensatezes da Humanidade consiste em vermos o mal de outrem, antes de vermos o mal que está em nós.
Para julgar-se a si mesmo, fora preciso que o homem pudesse ver seu interior num espelho, pudesse, de certo modo, transportar-se para fora de si próprio, considerar-se como outra pessoa e perguntar: Que pensaria eu, se visse alguém fazer o que faço?
Incontestavelmente, é o orgulho que induz o homem a dissimular, para si mesmo, os seus defeitos, tanto morais, quanto físicos. Semelhante insensatez é essencialmente contrária à caridade, porquanto a verdadeira caridade é modesta, simples e indulgente.
Caridade orgulhosa é um contrassenso, visto que esses dois sentimentos se neutralizam um ao outro. Com efeito, como poderá um homem, bastante presunçoso para acreditar na importância da sua personalidade e na supremacia das suas qualidades, possuir ao mesmo tempo abnegação bastante para fazer ressaltar em outrem o bem que o eclipsaria, em vez do mal que o exalçaria?
Por isso mesmo, porque é o pai de muitos vícios, o orgulho é também a negação de muitas virtudes. Ele se encontra na base e como móvel de quase todas as ações humanas. Essa a razão por que Jesus se empenhou tanto em combatê-lo, como principal obstáculo ao progresso.
O texto de Mateus (7:3 a 5) questiona a hipocrisia humana de querer reparar o argueiro no olho do irmão enquanto carregamos uma trave inteira no nosso próprio olhar. Kardec esclarece que o orgulho é o pai desta insensatez, agindo como um anestésico que nos faz dissimular as nossas imperfeições. O codificador sugere o exercício mental de se colocar "fora de si", considerando-se como um terceiro para julgar as próprias ações com real neutralidade e modéstia.
Esta lição é o ápice do tema "Conviver" e bate de frente com a cultura do apontamento e do cancelamento que adoece a nossa atualidade digital. Passamos os dias nas redes sociais a vigiar, julgar e condenar os comportamentos alheios, acreditando que a nossa opinião é o padrão de retidão do mundo. Agimos exatamente como os hipócritas que Jesus combateu, tentando arrancar o pequeno cisco do vizinho enquanto a nossa visão está completamente bloqueada pelo orgulho e pelo egoísmo.
Como a Valéria defendeu com tanta clareza na palestra, a convivência é um espelho sagrado. O outro não serve para ser modificado por nós; ele serve para nos mostrar onde ainda guardamos mágoas, intolerâncias e melindres. Quando aprendemos a aplicar a caridade moral e fazemos o exercício proposto por Kardec — de nos olharmos de fora —, percebemos que o tempo gasto a criticar o próximo deveria estar a ser usado na limpeza das nossas próprias gavetas íntimas. Mudar a convivência no mundo começa, obrigatoriamente, por retirar a trave que cega o nosso próprio coração.