
# 63 Podcast
Sueli Machado
Seguimos em um tempo que muito se agigantou o processo material da Globalização.
Como contra efeito, colhemos a Polarização nesta atual fase:
nos grupos, sociedades e nações.
E temos no "medo de morrer”, em seu sentido mais amplo, um fator de equilíbrio que retorna à Vida!
Nesta palestra, a abordagem Espírita muito colabora com o Revelar do Sentido individual e coletivo da Humanidade, ainda junto à Filosofia e à Literatura...
Podemos reler o Tema da Palestra: Você tem medo de morrer? - como o retorno ao sentido da vida, apenas impulsionado pelo fator desencarnação.
Muito rica, toda em tópicos que podem ser vistos na página, aos poucos e com introspecção (usando nossa consciência).
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Tema\Data\Palestrante
Prece
Palestra
2 Causas do Medo
Preparando-se para Mudar
Não há Morte
a Passagem do Justo
O Homem Moral
Educação para a Morte
O Condicionamento Humano
Arrependimentos ao morrer
o Sábio e o Turista
Iluminação
Marco Aurélio
Propósito de Vida
Platão
Crescer como Ser Humano
Fator de Soma
Sueli Machado
O Livro dos Espíritos - Parte quarta — Das esperanças e consolações - Capítulo I — Das penas e gozos terrestres - Temor da morte (se desejar, veja na Kardecpedia)
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Temor da morte
941. Para muitas pessoas o temor da morte é uma causa de perplexidade. De onde lhes vêm esse temor, dado que têm diante de si o futuro ilimitado?
“É um erro nutrirem semelhante temor. Mas, que queres, se procuram persuadi-las, quando crianças, de que há um inferno e um paraíso, e que mais certo é irem para o inferno, visto que também lhes disseram que o que está na natureza constitui pecado mortal para a alma!
Sucede então que, tornadas adultas, essas pessoas, se algum juízo têm, não podem admitir tal coisa e se fazem ateias, ou materialistas. São assim levadas a crer que, além da vida presente, nada mais há. Quanto aos que persistiram nas suas crenças da infância, esses temem aquele fogo eterno que os queimará sem os consumir.
Ao justo, nenhum temor inspira a morte, porque, com a fé, tem ele a certeza do futuro. A esperança o faz contar com uma vida melhor; e a caridade, a cuja lei obedeceu, lhe dá a segurança de que, no mundo para onde terá de ir, nenhum ser encontrará cujo olhar lhe seja de temer.” (730.)
O homem carnal, mais preso à vida corpórea do que à vida espiritual, tem, na Terra, penas e gozos materiais. Sua felicidade consiste na satisfação fugaz de todos os seus desejos. Sua alma, constantemente preocupada e angustiada pelas vicissitudes da vida, se conserva numa ansiedade e numa tortura perpétuas. A morte o assusta, porque ele duvida do futuro e porque tem de deixar no mundo todas as suas afeições e esperanças.
O homem moral, que se colocou acima das necessidades factícias criadas pelas paixões, já neste mundo experimenta gozos que o homem material desconhece. A moderação de seus desejos lhe dá ao Espírito calma e serenidade. Ditoso pelo bem que faz, não há para ele decepções, e as contrariedades lhe deslizam por sobre a alma sem nenhuma impressão dolorosa deixarem.
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942. Pessoas não haverá que achem um tanto banais esses conselhos para ser-se feliz na Terra; que neles vejam o que consideram lugares-comuns, cediças verdades; e que digam, que, afinal, o segredo da felicidade consiste em saber cada um suportar a sua desgraça?
“Há as que isso dizem, e em grande número. Mas muitas se parecem com certos doentes a quem o médico prescreve a dieta; desejariam curar-se sem remédios e continuando a apanhar indigestões.”
Livro Educação para a Morte-01 - Herculano Pires (se desejar, baixe o livro em PDF)
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Educação para a morte​
Vou me deitar para dormir. Mas posso morrer durante o sono. Estou bem, não tenho nenhum motivo especial para pensar na morte neste momento. Nem para desejá-la. Mas a morte não é uma opção, nem uma possibilidade. É uma certeza. Quando o Júri de Atenas condenou Sócrates à morte ao invés de lhe dar um prêmio, sua mulher correu aflita para a prisão, gritando-lhe: “Sócrates, os juízes te condenaram à morte”. O filósofo respondeu calmamente: “Eles também já estão condenados”. A mulher insistiu no seu desespero: “Mas é uma sentença injusta!” E ele perguntou: “Preferias que fosse justa?” A serenidade de Sócrates era o produto de um processo educacional: a Educação para a Morte.
É curioso notar que em nosso tempo só cuidamos da Educação para a Vida. Esquecemo-nos de que vivemos para morrer. A morte é o nosso fim inevitável. No entanto, chegamos geralmente a ela sem o menor preparo. As religiões nos preparam, bem ou mal, para a outra vida. E depois que morremos encomendam o nosso cadáver aos deuses, como se ele não fosse precisamente aquilo que deixamos na Terra ao morrer, o fardo inútil que não serve mais para nada.
Quem primeiro cuidou da Psicologia da Morte e da Educação para a Morte, em nosso tempo, foi Allan Kardec. Ele realizou uma pesquisa psicológica exemplar sobre o fenômeno da morte. Por anos seguidos falou a respeito com os Espíritos de mortos. E, considerando o sono como irmão ou primo da morte, pesquisou também os Espíritos de pessoas vivas durante o sono. Isso porque, segundo verificara, os que dormem saem do corpo durante o sono. Alguns saem e não voltam: morrem. Chegou, com antecedência de mais de um século, a esta conclusão a que as ciências atuais também chegaram, com a mesma tranquilidade de Sócrates, a conclusão de Victor Hugo: “Morrer não é morrer, mas apenas mudar-se”.
As religiões podiam ter prestado um grande serviço à Humanidade se houvessem colocado o problema da morte em termos de naturalidade. Mas, nascidas da magia e amamentadas pela mitologia, só fizeram complicar as coisas. A mudança simples de que falou Victor Hugo transformou-se, nas mãos de clérigos e teólogos, numa passagem dantesca pela selva Selvaggia da "DIVINA COMÉDIA".
Nas civilizações agrárias e pastoris, graças ao seu contato permanente com os processos naturais, a morte era encarada sem complicações. Os rituais suntuosos, os cerimoniais e sacramentos surgiram com o desenvolvimento da civilização, no deslanche da imaginação criadora. A mudança revestiu-se de exigências antinaturais, complicando-se com a burocracia dos passaportes, recomendações, trânsito sombrio na barca de Caronte, processos de julgamento seguido de condenações tenebrosas e assim por diante.
Logo mais, para satisfazer o desejo de sobrevivência, surgiu a monstruosa arquitetura da morte, com mausoléus, pirâmides, mumificações, que permitiam a ilusão do corpo conservado e da permanência fictícia do morto acima da terra e dos vermes. Morrer já não era morrer, mas metamorfosear-se, virar múmia nos sarcófagos ou assombração maléfica nos mistérios da noite. As múmias, pelo menos, tiveram utilidade posterior, como vemos na História da Medicina, servindo para os efeitos curadores do pó de múmia. E quando as múmias se acabaram, não se achando nenhuma para remédio, surgiram os fabricantes de múmias falsas, que supriam a falta do pó milagroso. Os mortos socorriam os vivos na forma lobateana do pó de pirimpimpim.
Muito antes de Augusto Comte, os médicos haviam descoberto que os vivos dependiam sempre e cada vez mais da assistência e do governo dos mortos. De toda essa embrulhada resultou o pavor da morte entre os mortais. Ainda hoje os antropólogos podem constatar, entre os povos primitivos, a aceitação natural da morte. Entre as tribos selvagens da África, da Austrália, da América e das regiões árticas, os velhos são mortos a pauladas ou fogem para o descampado a fim de serem devorados pelas feras. O lobo ou o urso que devora o velho e a velha expostos voluntariamente ao sacrifício será depois abatido pelos jovens caçadores que se alimentam da carne do animal reforçada pelos elementos vitais dos velhos sacrificados.
É um processo generoso de troca no qual os clãs e as tribos se revigoram. O pavor maior da morte provém da ideia de solidão e escuridão. Mas os teólogos acharam que isso era pouco e oficializaram as lendas remotas do Inferno, do Purgatório e do Limbo, a que não escapam nem mesmo as crianças mortas sem batismo. De tal maneira se aumentaram os motivos do pavor da morte, que ela chegou a significar desonra e vergonha. Para os judeus, a morte se tornou a própria impureza. Os túmulos e os cemitérios foram considerados impuros. Os cenotáfios — túmulos vazios construídos em honra aos profetas — mostram bem essa aversão à morte. Como podiam eles aceitar um Messias que vinha da Galileia dos Gentios, onde o Palácio de Herodes fora construído sobre terra de cemitérios? Como aceitar esse Messias que morreu na cruz, vencido 9 – EDUCAÇÃO PARA A MORTE pelos romanos impuros, que arrancara Lázaro da sepultura (já cheirando mal) e o fizera seu companheiro nas lides sagradas do messianismo?
De gostou e quer ler o Livro,
baixe aqui em PDF
A Morte não é Nada - poema de Henry Scott Holland, tradução de Nelson Santander (se desejar, veja detalhes no site da Poesia)
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A morte não é nada​​​
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​​​A morte não é nada. Ela não conta. Eu apenas passei para a sala vizinha. Nada aconteceu.
Tudo permanece exatamente como sempre foi.
Eu sou eu, e você é você, e a velha vida que vivemos carinhosamente juntos permanece intocada, inalterada.
O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda o somos.
Chame-me pelo meu antigo nome. Fale de mim do mesmo jeito simples de sempre.
Não mude o timbre da voz. Não vista nenhum ar forçado de solenidade ou de dor.
Ria como sempre ríamos das piadas de que desfrutávamos juntos.
Brinque, sorria, pense em mim, ore por mim.
Que o meu nome seja sempre aquela palavra de todos conhecida que sempre foi.
Que ele seja pronunciado sem esforço, sem o fantasma de uma sombra a pairar sobre ele.
A vida tem o mesmo significado que sempre teve. É a mesma que sempre foi.
Há uma continuidade absoluta e inquebrável.
O que é esta morte senão um insignificante acidente?
Por que eu deveria ser esquecido se estiver fora do alcance da visão?
Estou simplesmente à sua espera, por um intervalo, em um local bem próximo, ao dobrar a esquina.
Está tudo bem. Ninguém está ferido. Nada está perdido.
Um breve momento e tudo será como era antes.
Como riremos das dificuldades da partida quando nos encontrarmos novamente!
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No Livro Um Jeito de Ser Feliz, de Richard Simonetti, encontramos a psicografia de Herculamo Pires à sua família, em reunião mediúnica junto à sua casa (se desejar veja o Livro em PDF).
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Comunicação à Família
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Família querida,
Vivendo contigo dias felizes e amenos, na experiência do lar prossegue a vida.
Coragem e otimismo, não quero pompas nem velas,
Apenas a simplicidade do professor do interior em metrópole de céus e estrelas...
Sustenta em apoio vibratório a casa,
Ampara o livro da codificação,
E eu, em espírito ou memória, ao lado dos amigos espirituais contigo sempre estarei,
No apostolado de pregar e servir a Doutrina dos Espíritos,
Com o Mestre de Lion.
Virgínia querida, mais esposa do que esposo fui,
Já não tem falar, nem riso, não mais o poeta.
Mas que semblante triste o teu! Volte ao que era,
Como o tempo na casa velha,
Tudo é vida, das noites de rima, doutrina e cozinha,
Lar, amigos,
Não é confusão, é nova sensação,
A de viver, sentir que já não sou corpo,
Mas alma, até que enfim!
Desculpe, sou espírito de verdade,
Amparado em novas luzes,
A minha, a nossa luzinha, que ajudaste a construir...
No momento adeus, menos choro e mais café!
Se há dificuldade de captar a escrita,
Imagine a de despertar aqui,
Para dizer aos meus da sobrevivência da alma!
Muita paz em Jesus.
O Livro dos Espíritos - Parte terceira — Das leis morais - Capítulo XII — Da perfeição moral - Conhecimento de Si mesmo (se desejar, veja na Kardecpedia)
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Conhecimento de si mesmo
919. Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?
“Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.”
a) – Conhecemos toda a sabedoria desta máxima; porém a dificuldade está precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo?
“Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma.
Aquele que, todas as noites, evocasse todas as ações que praticou durante o dia e inquirisse de si mesmo o bem ou o mal que fez, rogando a Deus e ao seu anjo guardião que o esclarecessem, grande força adquiriria para se aperfeiçoar, porque, crede-me, Deus o assistiria. Dirigi, pois, a vós mesmos perguntas, interrogai-vos sobre o que tendes feito e com que objetivo procedestes em tal ou tal circunstância, sobre se fizestes alguma coisa que, feita por outrem, censuraríeis, sobre se obrastes alguma ação que não ousaríeis confessar.
Perguntai ainda mais: “Se aprouvesse a Deus chamar-me neste momento, teria que temer o olhar de alguém, ao entrar de novo no mundo dos Espíritos, onde nada pode ser ocultado?” Examinai o que pudestes ter obrado contra Deus, depois contra o vosso próximo e, finalmente, contra vós mesmos. As respostas vos darão, ou o descanso para a vossa consciência, ou a indicação de um mal que precise ser curado.
“O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual.
Mas, direis, como há de alguém julgar-se a si mesmo? Não está aí a ilusão do amor-próprio para atenuar as faltas e torná-las desculpáveis? O avarento se considera apenas econômico e previdente; o orgulhoso julga que em si só há dignidade. Isto é muito real, mas tendes um meio de verificação que não pode iludir-vos. Quando estiverdes indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, inquiri como a qualificaríeis, se praticada por outra pessoa. Se a censurais noutrem, não a podereis ter por legítima quando fordes o seu autor, pois que Deus não usa de duas medidas na aplicação de Sua justiça. Procurai também saber o que dela pensam os vossos semelhantes e não desprezeis a opinião dos vossos inimigos, porquanto esses nenhum interesse têm em mascarar a verdade, e Deus muitas vezes os coloca ao vosso lado como um espelho, a fim de que sejais advertidos com mais franqueza do que o faria um amigo.
Perscrute, conseguintemente, a sua consciência aquele que se sinta possuído do desejo sério de melhorar-se, a fim de extirpar de si os maus pendores, como do seu jardim arranca as ervas daninhas. Faça o balanço de seu dia moral, como o comerciante faz o de suas perdas e seus lucros; e eu vos asseguro que a primeira operação será mais proveitosa do que a segunda. Se puder dizer que foi bom o seu dia, poderá dormir em paz e aguardar sem receio o despertar na outra vida.
“Formulai, pois, de vós para convosco, questões nítidas e precisas e não temais multiplicá-las. Justo é que se gastem alguns minutos para conquistar uma felicidade eterna. Não trabalhais todos os dias com o fito de juntar haveres que vos garantam repouso na velhice? Não constitui esse repouso o objeto de todos os vossos desejos, o fim que vos faz suportar fadigas e privações temporárias? Ora, que é esse descanso de alguns dias, turbado sempre pelas enfermidades do corpo, em comparação com o que espera o homem de bem? Não valerá este outro a pena de alguns esforços?
Sei haver muitos que dizem ser positivo o presente e incerto o futuro. Ora, esta exatamente a ideia que estamos encarregados de eliminar do vosso íntimo, visto desejarmos fazer que compreendais esse futuro, de modo a não restar nenhuma dúvida em vossa alma. Por isso foi que primeiro chamamos a vossa atenção por meio de fenômenos capazes de ferir-vos os sentidos e que agora vos damos instruções, que cada um de vós se acha encarregado de espalhar. Com este objetivo é que ditamos O Livro dos Espíritos.”
Santo Agostinho
Muitas faltas que cometemos nos passam despercebidas. Se, efetivamente, seguindo o conselho de Santo Agostinho, interrogássemos mais amiúde a nossa consciência, veríamos quantas vezes falimos sem que o suspeitemos, unicamente por não perscrutarmos a natureza e o móvel dos nossos atos.
A forma interrogativa tem alguma coisa de mais preciso do que as máximas, que muitas vezes deixamos de aplicar a nós mesmos. Aquela exige respostas categóricas, por um sim ou um não, que não abrem lugar para qualquer alternativa e que são outros tantos argumentos pessoais. E, pela soma que derem as respostas, poderemos computar a soma de bem ou de mal que existe em nós.
O Livro dos Espíritos - Parte terceira — Das leis morais - Capítulo X — 9. Lei de liberdade - Fatalidade - 860
(se desejar, veja na Kardecpedia)
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LE-860
860. Pode o homem, pela sua vontade e por seus atos, fazer que se não deem acontecimentos que deveriam verificar-se e reciprocamente?
“Pode-o, se essa aparente mudança na ordem dos fatos tiver cabimento na sequência da vida que ele escolheu. Acresce que, para fazer o bem, como lhe cumpre, pois que isso constitui o objetivo único da vida, facultado lhe é impedir o mal, sobretudo aquele que possa concorrer para a produção de um mal maior.”
O Livro Uma Confissão - de Liev Tolstói - apresenta uma angústia de quase morte, onde ele renasce e nos chama a algum setido de vida que transcenda à Morte.
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Se gostar e quiser ler (é bem pequeno) o livro, baixe-o em PDF:
Uma Confissão
... (capítulo V)
Minha pergunta, aquela que, aos cinquenta anos de idade, me levou à beira do suicídio, era a mais simples que se abriga na alma de todos os homens, desde a criança tola até o velho sábio — uma pergunta sem a qual a vida é impossível, como eu estava comprovando, na prática.
A pergunta consiste nisto:
“O que vai ser daquilo que faço hoje, daquilo que vou fazer amanhã — o que vai ser de toda a minha vida?”.
Dita de outra maneira, a pergunta seria a seguinte:
“Para que devo viver, para que desejar algo, para que fazer algo?”.
Ainda de outra maneira, é possível expressar a pergunta assim:
“Existe, em minha vida, algum sentido que não seria aniquilado pela morte que me aguarda de modo inevitável?”.
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... (capítulo V)
O mais importante é que minha pergunta pessoal, “O que sou eu e o que são meus desejos?”, continuava sem resposta. E compreendi que aqueles saberes eram muito interessantes, muito atraentes, mas que eram precisos e claros de maneira proporcionalmente inversa à sua aplicabilidade às questões da vida: quanto menos eles se aplicavam às questões da vida, mais exatos e mais claros eram; quanto mais tentavam dar soluções às questões da vida, menos claros e menos atraentes se tornavam.
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... (capítulo VI)
Ora, eu sei — eu dizia a mim mesmo — o que a ciência deseja saber com tanta obstinação, mas a resposta para a questão sobre o sentido de minha vida não está nesse caminho.
No domínio especulativo, entendi que, apesar de — ou justamente por isso — o objetivo do saber estar declaradamente direcionado para a resposta à minha pergunta, não havia ali outra resposta senão aquela que eu mesmo me dava:
Qual é o sentido de minha vida? Nenhum.
Ou: O que vai ser da minha vida? Nada.
Ou: Para que existe tudo o que existe e para que eu existo?
Para existir.
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... (capítulo X)
E comecei a me aproximar dos crentes pobres, simples, sem instrução, os peregrinos, os monges, os cismáticos, os mujiques. Toda a vida dos crentes de nosso círculo estava em contradição com sua fé, enquanto toda a vida dos crentes trabalhadores era uma confirmação do sentido da vida fornecido pelo seu conceito de fé.
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... (capítulo X)
Passei a observar a vida e a crença dessas pessoas e, quanto mais observava, mais me convencia de que elas possuem a fé verdadeira, que sua fé é necessária para elas e lhes dá o sentido e a possibilidade da vida. Em oposição ao que eu via em nosso círculo, onde toda a existência transcorre em festas, diversões e insatisfação com a vida, eu via que toda a vida daquelas pessoas se passava em meio ao trabalho pesado e que elas eram menos insatisfeitas com a vida do que os ricos.
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... (capítulo X)
E me apaixonei por essas pessoas. Quanto mais eu me aprofundava na vida das pessoas vivas e também na vida das que já haviam morrido, sobre as quais eu lia e ouvia falar, mais eu as amava e, para mim mesmo, mais leve se tornava viver. Assim vivi dois anos e ocorreu uma transformação, que vinha se preparando, dentro de mim, havia muito tempo e para a qual eu sempre tivera propensão. Aconteceu comigo que a vida de nosso círculo — das pessoas ricas, instruídas — não só me causou repulsa como perdeu todo o sentido.
Todas as nossas atividades, todos os nossos argumentos, todas as nossas ciências, artes, tudo isso me pareceu uma brincadeira. Entendi que era impossível procurar nisso algum sentido. As atividades do povo trabalhador, que criava a vida, me pareceram a única tarefa verdadeira. E compreendi que o sentido fornecido por essa vida é a verdade, e eu o adotei.
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